O impacto da Covid-19 na Atividade Física e no Desporto

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A covid-19 chegou quando todos não estávamos à espera nem preparados para tal, será talvez a situação mais desafiante pela qual estamos a passar e enfrentar até ao momento. Na atividade física e no desporto teve um impacto significativo, nomeadamente ao nível das Federações Desportivas, dos ginásios, clubes e estúdios. Todos foram apanhados desprevenidos e sem estratégias pré-definidas para superar e lidar com a pandemia.

Na indústria do Fitness e do Desporto em geral, terá grande impacto e certamente causará estragos em muitos dos ginásios, clubes e afins, acredito que muitos destes, principalmente os pequenos e familiares, não irão resistir, pois já estão e estarão encerrados alguns meses e aquando da sua reabertura será com medidas de proteção individual restritivas, nomeadamente ao nível das aulas de grupo, piscinas e salas de musculação. Isto num mercado de concorrência desleal com as grandes cadeias lowcost, em que já os obrigaram a reduzir mensalidades e consequente quebra nos lucros. A situação mais descomplicada do reinício da atividade será certamente a dos pequenos estúdios de personal trainer que por norma tem três ou quatro alunos a treinar ao mesmo tempo, estes poderão reiniciar a sua atividade de forma mais pacífica e certamente irão recuperar com maior facilidade.

Impacto da Covid no dia a dia das Federações Desportivas, ginásios clubes e estúdios

Aquando da chegada do Covid-19, primeiramente, os ginásios começaram por implementar medidas de proteção individual. A própria AGAP garantiu que estavam preparados para a pandemia e recomendava o exercício físico, pois este aumenta a imunidade. Chegou mesmo a enviar planos de contingência para os mesmos, com medidas em que estes deveriam disponibilizar desinfetantes nas salas de exercícios, fixar informações sobre os cuidados de higiene a ter, limpar os locais com maior frequência e de forma sistemática e até mesmo definir uma zona onde deveriam ser encaminhados os utentes com sintomas de Covid-19, isto numa tentativa de continuar a manter os acessos e evitar um mal maior.

No entanto, com o evoluir da situação e o medo generalizado, muitos foram os ginásios e clubes, quer por medidas de proteção individual quer por consciencialização social, que por iniciativa própria optaram por encerrar, mesmo antes da tomada de decisão do governo. O estado de emergência obrigou a que todos estes fechassem portas levando a que ninguém pudesse frequentar ginásios, clubes, estúdios e todos os locais de prática de atividade física até mesmo os de ar livre.

As Federações Desportivas optaram por encerrar todas as suas competições e, no sentido de continuar a desenvolver a sua atividade, muitas foram as que direcionaram os seus cursos de formação para o online, para a formação à distância garantindo assim algum encaixe financeiro. A Federação Portuguesa de Futebol lançou um fundo de apoio a clubes e associações para que estes possam garantir e cumprir as suas obrigações. Muitos foram os clubes que pediram aos seus associados o pagamento de quota mínima, para garantir rendimento de alguma forma e também eles terem alguma fonte de receita para cumprir com as suas obrigações. Maior parte dos clubes profissionais de futebol ponderam reduzir o ordenado dos seus jogadores, muitos já o fizeram, por forma a equilibrar as contas, visto que deixaram de obter as receitas de bilheteira e muitos dos patrocinadores não continuam com os seus pagamentos pré estabelecidos nos contratos de patrocínio, pois deixaram de haver jogos e consequentemente estes não continuam a comunicar as suas marcas.

Em estado de emergência o COP conseguiu junto do governo que só os atletas de alto rendimento, respetivos treinadores e acompanhantes beneficiem de exceções que lhes permitem circular na via pública sempre que necessário, podendo assim treinar e preparar-se para o apuramento dos Jogos Olímpicos.

A necessidade de redirecionar as estratégias para o online para garantir a subsistência dos mesmos

Devido ao estado de emergência, às medidas de confinamento e com as suas portas fechadas, houve a necessidade de os ginásios direcionarem as suas estratégias para o serviço online, para garantir a sua subsistência. Muitos foram os que construíram plataformas online para manterem os seus clientes a treinar junto dos mesmos, mas desta feita, nas suas próprias casas, até porque os ginásios não poderiam cobrar a totalidade das mensalidades, poderiam sim cobrar com descontos, mas com consentimento dos seus clientes. Surgiu também a oportunidade de mercado para a criação de novos ginásios e serviços inteiramente online, onde disponibilizam aulas, planos de treino, artigos e exercícios.

Estamos hoje inundados nas redes sociais de treinos online, de vídeos e estratégias de treino acessível a todos de forma gratuita, muitos deles disponibilizados por profissionais da área assim como influencers, no entanto é importante o utilizador ter cuidado com os vídeos que acompanha e com quem treina, devem sempre procurar profissionais credenciados.

O treino em casa tornou-se fundamental não só para proteção pessoal dos praticantes, mas também para a subsistência dos próprios treinadores. Assim como as aulas e inúmeros vídeos gratuitos, muitos profissionais conseguiram manter um número significativo de aulas online, onde usam plataformas como o Zoom, Webex, Skype, entre outros. Mas muitos profissionais estão atualmente sem rendimentos, pois a maior parte destes trabalha a recibos verdes, neste momento estão acreditados pelo IPDJ 25 mil profissionais. Acredito que apenas uma pequena parte destes profissionais consiga manter algum rendimento, com quebras na ordem de cerca de 1/6 do seu vencimento habitual.

Cabe agora aos ginásios e clubes adotarem medidas que lhes permitam o contato com os clientes que não estão a usufruir dos seus serviços online, por forma a garantir a permanência e retorno dos mesmos no pós covid, para isso, a título de exemplo, devem enviar com regularidade news letters, assim como efetuar chamadas telefónicas individuais de forma pontual e até mesmo disponibilizar planos de treino individualizados via email para estes fazerem exercício na sua própria casa.

Aumento da consciencialização geral para aprática de atividade física

Mas, como em tudo na vida, nem tudo é mau. Houve um aumento significativo da consciencialização geral para a prática de atividade física. Muitas das pessoas violam o isolamento e confinamento para fazerem as suas corridas, os seus passeios higiénicos pondo em risco a sua saúde e a dos que os rodeiam. De um momento para o outro, vemos muitas pessoas a praticar atividade física, num país em que a taxa de prática de atividade física é das mais baixas da Europa, será pretexto para sair de casa? Esperemos que esta consciencialização perdure e aquando do término destas medidas as pessoas continuem a praticar atividade física de forma regular e que possamos aumentar os indicadores de prática do nosso país. Surgiram inúmeros desafios nas redes sociais onde se identificam os amigos para cumprirem determinados requisitos. Organismos públicos, como a DSG, lançaram uma série de recomendações para combater o sedentarismo, para que as pessoas se exercitem em casa. O IPDJ lançou o programa #SERATIVOEMCASA onde disponibiliza na sua página de internet oficial uma série de recursos em que as pessoas podem utilizar para praticar atividade física, muitos foram os atletas e figuras públicas que se juntaram a esta causa e lançaram eles próprios vídeos para o incentivo à prática de atividade física em casa. É também curioso que as disciplinas com menor carga horária letiva, em contexto escolar, nos tempos de hoje, em confinamento, são das mais importantes para a saúde física e mental, como é o caso da atividade física e do desporto, a música e meditação.

Relação com a saúde mental em tempos de confinamento

O exercício físico, atualmente, é visto por muitos como um escape das exigências do dia a dia, o confinamento social pode despoletar ansiedade, stress e/ou quadros depressivos em ambientes familiares e também aquando da permanência de isolamento social em solidão. Desta forma é necessário trabalhar, visualizar novas formas de dinamizar ou fazer chegar o exercício físico às pessoas. A solução online é a mais viável neste quadro, pois permite o contacto social e a distração. A prática de exercício físico liberta endorfinas o que lhes proporciona a sensação de bem-estar, o que é extremamente benéfico nesta conjuntura. A não prática de atividade física gera apatia. O estar em casa leva a comportamentos alimentares erráticos e excessivos o que vai levar a um aumento de peso, menos energia, baixa dos níveis de condição física e de saúde e consequente diminuição da autoestima. Uma das formas para preservar a saúde mental e a prática de atividade física seria as pessoas manterem a relação interpessoal com o seu treinador utilizando os seus serviços online, pois muitas das vezes este é um meio para exacerbar as suas preocupações, é uma forma de continuar a trabalhar as suas relações interpessoais e a sua rotina o máximo tanto quanto possível. É diferente assistirmos a um vídeo pré-definido e igual para todos ou estarmos em conversação e sermos permanentemente corrigidos pelo profissional que nos acompanha e confiamos desde sempre em tempo real. Mas, muitas são as pessoas que utilizam a atividade física e desporto maioritariamente como foco na imagem, esta é uma oportunidade também para a mudança de paradigma para usarem o foco para os benefícios que esta prática proporciona por exemplo, para melhorar o seu sistema imunitário, a embalagem nem sempre representa o seu conteúdo, deve ser vista como uma consequência do trabalho e não como o objetivo, pois os objetivos devem ser todos os benefícios inerentes à pratica desportiva.

Estratégia para o futuro

Como sabemos a prática de atividade física em ambientes fechados aumenta o risco de propagação do vírus pelo que na retoma das suas atividades os ginásios deverão optar por apostar em treinos outdoor, continuar com algumas aulas e acompanhamento online, fazer as marcações das aulas mais espaçadas para evitar o aglomerar e cruzamento de um número excessivo de pessoas, assim como adotar as medidas de proteção individual, como o uso de mascaras, baixar o número de utilizadores em simultâneo, higienização de forma mais frequente e sistemática entre aulas e alunos. Será também da máxima importância todas as organizações desportivas, usarem este momento como um momento de aprendizagem para elaborarem planos de contingência para o futuro. Torna-se necessário uma evolução social no sentido de harmonizar os rendimentos e não haver rendimentos sociais dispares, dar lugar a um ajuste proporcional para todos manterem os mesmos níveis de rendimento e um equilíbrio proporcional do custo, uma das medidas necessárias é a majoração dos espaços, para assim baixar os custos e talvez até um pequeno aumento das mensalidades, pois o mesmo espaço projetado para um certo número de pessoas não terá o mesmo rendimento com a limitação do número de utilizadores, o espaço perde valor, ou seja deverá haver um ajuste das rendas para que caminhemos no sentido de harmonizar os esforços de todos. Já para os consultores desportivos haverá a oportunidade de trabalho pois viram ou virão os seus serviços requisitados para a elaboração de cenários e planos estratégicos de retoma económica pós pandemia.

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