O movimento associativo português não vive, sobrevive.

Mudança de paradigma é urgente no sentido de catapultar o desporto rumo à excelência desportiva, caso contrário perderemos mais duas ou três gerações.

Na maior parte do desporto amador em Portugal os modelos de gestão assentam na carolice dos seus agentes, sem qualquer tipo de formação específica ou simples conhecimento do que são instrumentos de gestão e as melhores práticas e orientações da gestão desportiva. Assim a excelência desportiva dificilmente será atingida. Nos casos de sucesso em Portugal, que os há, deparamo-nos com gestão profissional e boas práticas de gestão, com visão, missão, objetivos e estratégias bem definidas, assentes em valores, ética, desenvolvimento desportivo, planeamento para a formação e igualdade de gênero. Muitas das vezes, senão a maior parte, o caminho é apontado pelos técnicos e sua visão e a gestão não tem outro caminho senão ir a reboque.

Em pelo século XXI ainda se discute que o desporto não faz parte do discurso político em Portugal e todas as ações levadas a cabo pelas instituições que representam o desporto português são completamente ignoradas.

Dizer que o associativismo é de carolice e para a carolice, não representa necessidades e aspirações dos atletas, que acabam por abandonar a prática desportiva precocemente maior parte das vezes por não verem luz ao fundo do túnel. Isto acontece pelo fraco desempenho do papel do dirigente associativo, da continuidade da gestão em cima do joelho, sem qualquer planeamento e sem a definição de objetivos claros. A gestão acontece para colmatar as dificuldades do dia a dia, são ações reativas não planeadas.

O planeamento rigoroso, detalhado com objetivos bem definidos faz o futuro acontecer, faz obter dados mensuráveis onde é possível identificar falhas e definir estratégias para melhorar ações e atingir os objetivos.

Com o planeamento atingiremos novos patamares, através do planeamento estratégico, tático ou operacional.

O bem institucional é sistematicamente posto de lado em função de objetivos particulares. Muitas das vezes, senão a maior parte, o financiamento destas instituições aparece através dos órgãos diretivos com alguma liquidez financeira, que por gostarem muito da modalidade, no sentido de ajudar a instituição acabam por financia-la, mas uma vez abandonado o barco, por limitação de mandatos, desânimo ou desinteresse nada fica construído para base autónoma de desenvolvimento da instituição, acabando a longo prazo por a prejudicar, pois esta não foi capaz de criar mecanismos de desenvolvimento. O líder não tem de contar com o seu financiamento pessoal, mas sim com delinear estratégias e formas de financiamento da organização.

Os líderes vão e vêm mas as instituições ficam.

O paradigma precisa urgentemente de mudar, o trabalho tem de ser construído numa ótica de desenvolvimento desportivo sustentado, que dotem as instituições de ferramentas que possam perdurar no tempo.

Comparar uma instituição de associativismo a uma empresa não é errado, pelo contrário é assim que deve ser pensada, desenvolvida e planeada. Por ser uma instituição Federativa ou associativa não quer dizer que não dê lucro, a única diferença é que esses mesmos lucros não podem ser distribuídos pelos associados, mas sim reinvestidos na instituição.

É necessário, planear, preparar formas de financiamento quer sejam através de contratos de programa de desenvolvimento desportivo quer por contratos de patrocínio para que as instituições não se financiem unicamente através das quotas dos seus associados e agentes. Trazer os stakholder's para a vida associativa é de extrema importância, para que estes tenham um papel ativo no quotidiano da instituição e partilhem também das mesmas preocupações com um papel interveniente no desenvolvimento das mesmas.

É necessário combater também a subsidiodependência, criando mecanismos e formas de autofinanciamento e não centrar a gestão corrente apenas de dinheiros do erário público.

O papel do dirigente desportivo tem de mudar, nomeadamente quanto ao seu estilo de gestão, ainda nos deparamos muito com o estilo autocrático, onde toda a atividade é centrada no líder. A capacidade de delegar é crucial, para que o líder tenha tempo para pensar por exemplo sobre a visão estratégica da organização.

Importa também referir que o papel do dirigente associativo tem que ser valorizado, é necessário a criação de um regime jurídico para este cargo para que este seja apetecível com o intuito de atrair recursos humanos capazes e competitivos e que estes possam fazer carreira. É necessário dirigentes que se deitem e acordem a pensar no desporto, na modalidade e nas instituições.

É comum o associativismo ser usado para notoriedade, muitas das vezes os dirigentes com capacidade e alguma visão atingem notoriedade e facilmente dão o salto para os meandros políticos e também o contrário, ou seja, o desporto e o movimento associativo é um caminho para atingir um outro objetivo e pouco ou nada se dotou a instituição de inovação e ferramentas para o seu autodesenvolvimento sustentado.

O desporto nos dias de hoje está cada vez mais competitivo e profissionalizado, o papel do dirigente bem mais exigente, a uma velocidade estonteante, cada vez mais é necessária uma gestão profissional e técnicos de gestão especializados para acompanhar os tempos. Não queiramos e exijamos que o atual perfil do dirigente (que tem a sua profissão e o seu ganha- pão) se preocupe com estas temáticas. Novas sinergias e novos horizontes são necessários para que o desenvolvimento desportivo sustentado aconteça.